PROCESSOS ESPECIAIS DE REDUÇÃO VOCABULAR - Um breve percurso da acronimia, braquissemia, sigla, blend, amálgama, palavra -valise, truncamento, cruzamento vocabular e fracionamento do português brasileiro


Alana Melo

Acadêmica de Letras, língua e literatura (UFAM/AM)

28/09 

A particularidade de cada um destes processos vocabulares que formam reduções no léxico no português brasileiro aponta uma variável nomenclatura e máximas de significados apresentados por estudiosos da língua. 

Primeiramente, de acordo com LIMA (2014) os: ‘’processos que formam novos vocábulos a partir da perda de segmentos chamam-se casos de morfologia subtrativa'', por outro lado, GONÇALVES (2013) contrapõe que: [...] Esses processos [...] são “subsidiários” em português'', enquanto ROCHA LIMA (2003) apresenta como: [...] Quando existe [...] alguma menção a processos de morfologia não-aglutinativa, estes são dispostos sob o rótulo genérico de “abreviação vocabular”. 

Diante disso, BECHARA (2009) argumenta: [...] também denominados processos marginais de formação de palavras, têm sido analisados sob a ótica de [...] Morfologia Prosódica.'' Para (McCARTHY, 1986; McCARTHY & 14 PRINCE, 1990) e a Teoria da Correspondência (McCARTHY & PRINCE, 1995) se dá como, uma extensão da Teoria da Otimalidade aplicada à morfologia (BENUA, 1995). (apud REALIZAÇÃO FONÉTICA DE ACRÔNIMOS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: UMA ABORDAGEM MORFOFONOLÓGICA ATRAVÉS DA TEORIA DA OTIMALIDADE, 2014, p.13-14). 

Cabe ressaltar tomando os dados como base, que o estudo de nomenclaturas de morfologia subtrativa irá modificar de autor para autor, logo é possível confirmar que por mais que esses termos não façam parte de um grupo linear de estudo da morfologia é uma ocorrência incontestável da própria língua portuguesa, sendo sempre necessário estudos como esses para averiguar as mudanças ou nascimentos de novos vocábulos que fazem parte da redução vocabular.

BRAQUISSEMIA

No caso da redução por Braquissemia, também chamada de abreviação vocabular. Este fenômeno de redução morfológica faz surgir novas palavras que foram formadas pelo encurtamento de outras já existentes na língua. A exemplo disto, conforme Margotti (2009) explica: ‘’Braquissemia (ou truncação) é o emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro. É resultado da subtração e o elemento restante passa a valer semanticamente pelo todo. Equivale ao que alguns autores classificam como abreviação vocabular, expressão que não deve ser confundida com abreviatura. A subtração pode ocorrer nos elementos finais (apócope), iniciais (aférese) ou, mais raramente, mediais (síncope). Exemplos: Ӳ fotografia → foto Ӳ telefone → fone’’. (p.134). À vista disso, coletou-se exemplos de braquissemia que podemos facilmente identificar nos dias atuais, divididos por linguagem de falantes de grupos sociais, região ou gíria.

Grupos sociais: Net → por Internet

Grupos sociais: Profi, Fessô e Prô→ por Professor

Gíria ou Coloquial: Tá → por Está

Gíria ou Coloquial: Vamo → por Vamos

Gíria ou Coloquial: Brigado → por Obrigado

Gíria, coloquial ou grupo social: Ocê e Cê → por Você

Grupo regional: Bá → por Barbaridade

Gíria ou Coloquial: Niver → por Aniversário


ACRÔNIMO

O fenômeno que ocorre no processo de redução de palavras pode ser entendido como morfofonológico em português Brasileiro. É o que ocorre no modo acronímia, na formação se concretiza de um caso por abreviatura da palavra(s), frase ou título a partir, de grafema(s) que estão no início dessas palavras (este é o processo escrito). O contexto fonético assume um contínuo sem causar dependência fonética no seguimento de sons que são agrupados por articulação. Conforme Araújo (2002): ‘’a partir de letras/sílabas iniciais das palavras de um nome, frase ou título, forma-se uma nova palavra Faculdade de Engenharia Civil: FEC [...] Banco Brasileiro de Descontos: Bradesco.'' (p. 64). Outros exemplos encontrados em um banco de dados de palavras reduzidas por braquissemia, formadas por grafemas situados no início das palavras abaixo:

Universidade Federal do Amazonas: UFAM

Organização das Nações: ONU


SIGLA

As siglas possuem seu processo quase que restrito à escrita da língua, porém podemos usar no cotidiano em diversos contextos. No contexto fonético as siglas possuem som contínuo ou soletrado, mas atenção para os contextos ambíguos linguístico e situacional. Vejamos, a seguir, conforme VILLALVA (2008): ‘’as siglas podem ser ambíguas. PS, por exemplo, pode significar post scriptum ou Partido Socialista, PC remete para Partido Comunista e também para computador pessoal (personal computer), APL pode significar Administração do Porto de Lisboa, Associação dos Produtores de Leite ou Associação Portuguesa de Linguística e PSP tanto identifica a Polícia de Segurança Pública como a PlayStation Portable.’’. ( p. 32). Outros exemplos que podemos observar é a sigla que permanece a mesma, formadas por siglagem ambígua que possuem seu significado totalmente diferente por exemplo neste caso abaixo descrito para:

IPA:

1. The International Phonetic Alphabet

2. Instituto Agronômico de Pernambuco


BLEND

Blends ou BL (termo em inglês: liquidificador-mistura) serve para representar o fenômeno de semelhança estrutural e morfológica, possível da soma de um cruzamento vocabular entre palavras que resultam apenas em uma nova palavra, frases ou títulos. Exemplos, conforme ARAÚJO (2002): ‘’sobreposição ou concatenação de dois elementos formando um novo: carnaval e natal: carnatal, vampiro e capeta: vampeta.’’ (p.64). Outros exemplos que podemos buscar são:

Cronut → por croissant e donut

Maravilinda → por Maravilhosa e linda

Maju → por Maria e Júlia


AMÁLGAMA

O fenômeno por redução que ocorre neste processo é descrito por Silva (2012) como uma ocorrência da própria língua do falante. Formações por amálgama são explorações da consciência de sistema da língua. Silva (2012) nos orienta que: ‘’as formações por amálgama lexical precisam garantir a evocação do sentido construído por meio do processo de mescla de bases’’ (p.16). Como nos exemplos encontrados abaixo, as palavras passam por um processo de subtração vocabular das bases, porém surge uma palavra totalmente usual, como:

Informática → por Informação e Automática

Telemóvel → por Telefone e Móvel


PALAVRA -VALISE

Nesta terminologia (Portmanteau em francês) a ‘’palavra -valise’’ representa o processo de redução que ocorre ou nas duas palavras base subtrativa, ou em apenas uma delas perdem partes constituintes de significado. Conforme Neto (2016): ‘’nas palavras-valise, duas palavras base, ou apenas uma delas, perdem parte de seus elementos fonológicos para constituírem um novo item lexical, sendo, geralmente, a perda da parte final da primeira e a parte inicial da segunda. Os exemplos da autora incluem brasiguaio (brasileiro + paraguaio), cantriz (cantora + atriz), novelha (novo + velha) e showmício (show + comício).’’ (p. 48). Outros eventuais exemplos:

Maravilinda → por Maravilhosa e linda

Pagofunk → por Pagode e funk

Namorido → por Namorado e marido

Taxativo → por Taxado e Ativo

Advogata → por Advogada e Gata


TRUNCAMENTO

Neste processo que ocorre na palavra, seus constituintes morfológicos perdem seus elementos de base, mas não alteram as compreensões desses produtos vocábulares. Referentes a isto, Araújo (2002) explica que: ‘’Truncamento ou Abreviação: mutilação de uma palavra existente, sem alteração de significado: cerveja: cérva, refrigerante: refrí’’ (p.64). Outros exemplos que podemos perceber no dia a dia:

Busão → por Ônibus

Niver → por Aniversário

Deprê → por Depressão

Fone → por Telefone

Motora → por motorista

Reaça → por Reacionário


CRUZAMENTO VOCABULAR

O Cruzamento Vocabular é, segundo Sandmann (1991): ‘’elementos formadores, todos ou ao menos um, sofrem diminuição de seu corpo fônico. Exemplo em que os dois elementos sofrem redução: exemplo em que apenas um elemento sofre redução: pescópia (de pesquisa + cópia), [...] os cruzamentos vocabulares podem ser copulativos ou determinativos. Quando temos uma adição de elementos do mesmo nível, uma coordenação, temos um cruzamento vocabular copulativo. É o caso de “Suicíndia” (Folha, 1/3/89, A-3: “Suicíndia: mistura de Suíça das contas numeradas com índia das turbas esfaimadas.”). [...] Quando temos uma adição de dois elementos de nível diferente, uma subordinação, o cruzamento vocabular se diz determinativo. Exemplos seriam [...] “A campanha do PSDB vai ganhar um helicóptero, batizado de tucanóptero.”), de “tucano + helicóptero”, em que o núcleo diminuído -óptero é especificado por “tucano”, apelido dos peessedebistas.’’ (p.76). Outros exemplos:

AGUARDENTE → por Água e Ardente

AMERÍNDIO → por Americano e índio


FRACIONAMENTO

Cambrussi e Neto (2009) retomam o entendimento: ‘’Já quanto ao fracionamento vocabular, o autor diz tratar-se de “[...] um processo de recorte abreviativo não-previsível cujo intuito é surpreender o interlocutor. Difere da truncação por ter uma característica extemporânea, de difícil propagação, tendo em vista suas finalidades discursivas e pragmáticas” (p. 158). Um dos exemplos usados pelo autor é a música País tropical de Jorge Benjor, onde se encontra três exemplos no verso Mó num pá tropi, cujas formas não fracionadas são Moro para Mó, país para pá e tropical para tropi.’’ (p.9). Ao surpreender o leitor, causa-se previsivelmente este processo que fará surgir uma palavra completamente nova decorrente de mais de duas palavras bases, outros exemplos pertinentes abaixo na poesia carnavália no terceiro verso, temos corasamborim, um vocábulo formado por coração + samba e tamborim.

Carnavália

Repique tocou

O surdo escutou

E o meu corasamborim

Cuíca gemeu, será que era meu, quando ela passou por mim?

[...]

Bolsominion → por Bolsonaro e Os minions 

Finalmente, para compreendermos os processos especiais de redução de vocábulos, baseando-se na pesquisa por meio bibliográfico, verificou-se mais de uma terminologia, pois cada autor interpreta este processo de forma particular. Sendo assim, o processo de redução vocabular vai ser chamado de derivação regressiva (CUNHA e CINTRA, 2017), ou de formação regressiva (BECHARA, 2009). Mas antes de entendermos como se dá esse processo, precisamos compreender que um vocábulo é composto por mais de um morfema, para assim falarmos da ausência ou subtração morfêmica que ocorrerá dessa formação para uma nova palavra. Como o campo é abrangente, torna pertinente o retorno deste trabalho em qualquer momento para verificar o surgimento de novas palavras que passam pelo processo subtrativo de redução vocabular.

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